Depressão pós COVID

Passados os tempos de pânico inicial, de ansiedade e medo elevados, agora temos os resíduos da Sindemia. Este termo foi cunhado por Merrill Singer na década de 1990, e explica a situação em que duas ou mais doenças interagem e que causam danos maiores do que a mera soma dessas doenças.

O sofrimento  diante de todas as limitações e perdas que a pandemia trouxe causou impacto significativo na saúde mental das pessoas. Nós somos mamíferos e por conta disso temos empatia diante de situações de sofrimento. Isso ocorre quando nos colocamos diante de certas situações que nos mobiliza emocionalmente. Nessas situações também temos  uma ativação no sistema nervoso que pode, muitas vezes, dependendo do seu impacto, resultar em uma reação de “‘congelamento”. Nesse momento temos a formação de traumas. 

As consequências desse afastamento social inicialmente geraram sintomas de ansiedade em todos nós. Porém, sabe-se que após cerca de 45 dias, com níveis aumentados de  cortisol, o organismo produz outro hormônio que é a noradrenalina. Isto é, deixa de ser estresse para ser uma resposta de sobrevivência. O nível de cortisol pela manhã deve estar em torno de 17-18 pontos em um adulto. Em pessoas que já apresentam o Transtorno de Estresse pós traumático (TEPT) é visível o abaixamento de cortisol a médio prazo. 

Mas por quê ocorre esse rebaixamento do cortisol? Porque se ele ficar em nível alto muito tempo inibe-se a resposta de luta-fuga-congelamento (resposta de sobrevivência/ proteção). É mais ou menos como se normalizássemos “por baixo” a sensação de ansiedade e com isso o corpo se sente desprotegido. Então o cérebro para que você consiga se proteger – abaixa o nível de cortisol. Isso faz com que haja um reflexo no  sono. Já repararam como a quantidade e a qualidade de sono das  pessoas foi modificada na quarentena? Pessoas dormindo menos, acordando com sensação de cansaço. Isso ocorre para que possamos ter uma resposta de emergência em uma situação de perigo. Se  conseguimos dormir, o corpo não vai produzir especialmente a serotonina, que é o hormônio do humor, comumente rebaixado na depressão.  Na pandemia estávamos vivendo como se estivéssemos em perigo constante.  O que nos mostra que a curto e médio prazo, possivelmente muitas pessoas apresentarão  depressão. 

É importante um certo nível de cortisol para que estejamos mais atentos, ativos. No entanto, o abaixamento a longo prazo terá como consequência as doenças autoimunes, diabetes, câncer, doenças cardíacas, entre outras. 

O afastamento social tem um  ritual de passagem: “sensação de  férias”, ansiedade,  tédio, tristeza  e depois depressão. Estima-se que cerca de 20% das pessoas possam precisar de medicação. Afinal, a dor psicológica também tem o seu limite. Como mamíferos e seres sociais, instintivamente precisamos viver em bando. Isso faz com que nos corregulemos emocionalmente. A corregulação também ajuda na autorregulação, na medida que compartilhamos nossas vidas com outras pessoas.  Afinal, nosso cérebro é formado a partir de nossas experiências de vida. Por isso a importância do contato social . 

Nossos pensamentos possuem  uma química própria. Quando se está depressivo é como se o  cérebro entendesse que estamos  em perigo.  Há um excesso de noradrenalina, que é maléfico ao cérebro e ao corpo. Quando estamos sob alto nível de estresse tendemos a aumentar o nosso processo ruminativo dos pensamentos e perdemos cerca de 26 horas para liberar os hormônios ativados no corpo nessa situação. Ou seja, ruminar e falar incansavelmente dos problemas não ajuda a tratá-los, só treina a memória e fixa um “caminho neuroquímico" para a ruminação. Precisamos ativar os hormônios do bem para melhorar, como a ocitocina e betaendorfina:  antídotos contra o ”veneno“ da noradrenalina e cortisol. 

As Neuroterapias são processos de terapia que utilizam de estimulações que fazem o cérebro processar mais rapidamente os materiais disfuncionais.  Assim o cérebro trabalha em potência máxima para dessensibilizar os efeitos negativos emocionais do trauma e armazenar as memórias, fazendo com que elas não sejam mais trazidas à consciência carregadas de perturbação. O hormônio DHEA (dehidroepiandrosterona) é ativado e combate a falta de interesse e satisfação nas atividades, assim como o  FAN  (Fator Artrial Natriurético), que aumenta o comportamento motivado. Com isso as pessoas têm uma melhora significativa  e demonstram sentimentos de bem estar e vivem mais felizes. No entanto, é importante que busquem tratamento .   

  Palavras-chave. Depressão pós COVID - Sindemia - Hormêonios

Leia Tambem

Escrito por Michele Beckert

Publicado em 2022-04-20

Tags

Psicologia

Sugerimos que você também leia estes