Traumas Complexos São Desafiadores 2

A Recompensa da Abstinência ao Uso de Drogas

No artigo anterior escrevi sobre a história de A., um dependente químico em abstinência há três anos e em processo de psicoterapia no mesmo tempo.  Chama a atenção em A. o fato da própria evolução em conhecer-se. No início, mesmo já pós internamento e em abstinência, parecia travar seu cérebro quando era questionado sobre seu sentimento em relação a algo que era trazido na terapia. Parecia procurar dentro de si qualquer informação e nada vinha, até por vezes gaguejava, parava e sua resposta “não sei” era a mais presente, o que lhe causava uma visível agonia e ansiedade. Quase poderia dizer que conseguia ver o buraco, o branco que dava.  Ao mesmo tempo, parecia desafiador ir em busca de tais respostas. Por que acontece isso? Podemos levantar a hipótese de sequelas neurais pelo uso da droga, no caso, cocaína, que dificultava esse acesso. E uma falta de conhecimento de si mesmo. Como sua mãe teve problemas com alcoolismo e o pai bastante ausente, essa linguagem e inteligência emocional não foi desenvolvida.  Aos poucos, como uma criança que vai aprendendo, começou a identificar e a falar sobre os sentimentos e como conseguia agora se observar nas situações. 

Como disse ao final do artigo anterior, a esposa veio junto para algumas sessões de casal. Havia feito o encaminhamento para um outro terapeuta de casal, que não tivesse vínculo com nenhum dos dois.  Mas o movimento não foi feito. O pedido por parte dele continuava. E acabei aceitando o desafio, sabendo que teríamos limitações, barreiras para enfrentar, pois o vínculo estava estabelecido com ele; com ela, sentia sua confiança no processo dele, vendo os resultados do tratamento. 

A postura e presença da esposa, B., era quase um favor, atendendo um pedido de A. Ele pedia para aprofundar a relação, para olhar para questões do relacionamento e sexualidade. Até que realmente veio a mágoa escondida há muito, pelo uso da cocaína, álcool e suas consequências. Para ela, ele estava pedindo algo absurdo em relação a tudo o que sofreu e viveram no passado. Até então estavam trocando elogios e o núcleo da dor estava sendo protegido.  Após vir à tona a dura verdade da convivência, dores e traumas que são deixados na relação com o adicto, houve um alívio na sessão. Parecia que, de fato, o que precisava ser dito, enfim foi. A reação dele foi de um homem adulto que sabia que esse dia chegaria com força, mas teria que ouvir e processar, afinal, danos foram deixados de lado e falados superficialmente. Essa é a realidade da maioria dos casais e famílias onde tem um dependente químico, mesmo em abstinência. Todos têm medo de falar sobre coisas difíceis que aconteceram por receio de recaídas. Por isso, casais e famílias serem assistidas por profissionais capacitados é muito importante. 

Ela, B., veio em duas sessões individuais depois disso, para ter um espaço de apoio e acolhimento individual. Ainda persistem alguns comportamentos e linguagens infantilizadas referentes a A. Isso não é aceito por B., explicando que é carinho. Porém, ouvindo com atenção, com acuidade auditiva desenvolvida pelo psicólogo, que vai além do termo em Medicina (capacidade sensitiva e perceptiva da sua audição – Grupo Binaural – Google), a hipótese mais provável é de um tratamento maternal.  Torna-se comum num casal onde existe dependência química que antes não funcionava como dois adultos e sim como cuidador e cuidado, mãe e filho, numa relação assimétrica. A batalha é conquistar uma relação simétrica, pois é o que é para que a relação de casal possa dar certo. 

Encontraram um equilíbrio e paz possível nesse momento da relação entre eles. O caminho continua. 

E A. teve um salto profissional no último mês. Tem uma pequena empresa e recebeu um pedido inesperado. Essa é a recompensa também de tratar algo que as pessoas dizem ser muito difícil, e é, a dependência química, mas como se não fosse possível. Sim, é possível! O trabalho é conjunto: o próprio dependente, a família de origem, o casal ou família atual, rede de apoio, médico psiquiatra e o psicólogo qualificado. Juntos é possível resgatar a vida. 

 

Trauma Complexo. Recompensa pela abstinência ao uso de drogas. Apoio familiar

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Escrito por Rosane Klein

Publicado em 2022-03-20

Tags

Psicologia

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