Por que as pessoas se cortam!

Para entendermos isso, é importante falarmos que duas causas possivelmente podem estar contribuindo para esse comportamento. As redes sociais, que fariam com que isso virasse de certa forma uma moda, especialmente entre os adolescentes, ou os traumas psicológicos. Neste texto falarei da segunda causa. Para entender melhor primeiramente temos que compreender que o trauma psicológico é um momento, em suma, de grande desamparo emocional.

Nas situações traumáticas as pessoas acionam um mecanismo de emergência que dispara uma série de reações físicas e pensamentos que preparam o corpo para uma situação como a de luta, fuga ou congelamento (sim, esta é uma estratégia de defesa também adotada). Os teóricos da teoria do trauma apontam que para haver um trauma devemos ter algum  tipo de congelamento. O que “congelaria” seriam, especialmente, as memórias do corpo, decorrentes das lembranças de desamparo, que normalmente estariam localizadas no córtex subcortical (aquele mais primitivo e somático). 

Cada vez que eu acionasse um gatilho de trauma, por exemplo, uma situação em que eu sentisse que seria abandonada (vejam que não precisa ser uma ameaça real), eu teria uma descarga de noradrenalina, um neuro-hormônio que é disparado em situações sentidas como perigosas.  Além disso, a cada novo gatilho mais retraumatizações eu teria. Ou seja, um ciclo interminável.  

Robert Scaer fala de um conceito interessante,  que é o de quebra de barreiras. Para ele, todos nós teríamos um campo magnético que estaria ao nosso redor.  Assim, quando houvesse uma situação que disparasse uma sensação de segurança e proteção, essa barreira ou campo se expandiria, mas se fosse o contrário, uma sensação de perigo, este campo diminuiria e me deixaria mais atento. O trauma seria uma quebra dessa barreira, o que faria como se a pessoa ficasse mais vulnerável de um lado do corpo do que de outro. Há evidências que comprovam que as pessoas que se cortam normalmente o fazem mais de um lado do corpo.  Quando há essa ruptura a flexibilidade acaba e há o que chamamos de Transtorno de Estresse Pós Traumático (TEPT). O corpo também fica mais vulnerável a novas traumatizações.   

Provocar algum ferimento intencionalmente seria uma defesa primária do TEPT, ou seja, uma forma que a pessoa adotaria para seguir sua vida apesar do trauma, separando o sentimento da memória vivenciada. Chamamos isso de Dissociação. As  ações decorrentes da Dissociação somática, que também poderiam ser consideradas  uma forma de  parassuicídio (ação que não tem como intenção direta o suicídio), como as automutilações. Ademais poderíamos dizer, de forma geral, que  nas situações em que a pessoa  não se protege adequadamente, ou se coloca em risco, também poderiam ser consideradas como parassuicídio. 

Cortar-se seria uma forma de aplacar a ansiedade causada pela lembrança do trauma. Como o afeto estaria dissociado da memória do fato, seria literalmente “cortar na carne o que dói na alma”.  Outra questão interessante, do teórico Van der Kolk , que trata sobre um tema da psicologia bastante comum que é o da “compulsão à repetição” (quando uma pessoa se coloca, mesmo que inconscientemente, em situações análogas às que fazem sofrer, buscando uma forma de ressignificá-las), é a de que as pessoas repetem as ações por vício. Sim, isso mesmo! Cada vez que se cortassem, haveria um disparo de noradrenalina, o mesmo neuro-hormônio  que disparamos em situações de perigo. Ao acionar esse mecanismo a pessoa sentiria a necessidade de abafar essa ansiedade. Isso viraria um mecanismo de compensação, como o que ocorre com as drogas. A Dissociação faria com que a pessoa não sentisse dor e quanto mais traumáticas fossem as pessoas, menos dor teriam ao machucar-se. 

Diante dessas informações podemos dizer que  as terapias tradicionais, baseadas exclusivamente em aspectos cognitivos  normalmente têm pouco alcance e resolutibilidade quando tratamos de dissociações e consequentemente de traumas. 

 

Palavras-chave: Cortar-se; Fuga; Ansiedade; dor

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Escrito por Michele Beckert

Publicado em 2022-01-15

Tags

Psicologia

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