Fomos pegos no fraga, traumatizamos o filho?

Comumente recebo pais aflitos com esta pergunta e respondo sempre: tudo vai depender da forma que vocês vão lidar com a situação.

Então vejamos: se a sexualidade é o reduto mais bem protegido dos indivíduos e serem descobertos nos seus segredos de alcova causa-lhes um terrível mal-estar. Precisamos que esta área seja resguardada,  pois é ali que se exprimem as fantasias sexuais de cada um, que são o íntimo da privacidade. Nenhum adulto está disposto a mostrar-se para os filhos.

Note bem que não estamos falando da parafilia do exibicionismo ou voyeurismo, em que ambos desejam ser vistos pelos outros. Falamos aqui do adulto adequado, não exibicionista, não voyeurista.

 É sabido, também,  que nenhum filho está preparado para pegar os pais no flagra, numa transa, mesmo criança ou até um adulto.

Inicialmente, vamos pensar o que isto significa: que o filho estava no lugar errado vendo ou ouvindo algo que não lhe pertence; sim, a vida íntima, sexual dos pais não deve ser do conhecimento dos filhos. Isto causa um extremo mal-estar, vergonha, nojo e repulsa nos filhos.

Por óbvio, é responsabilidade dos pais afastarem o filho disto, trancando a porta do quarto, resguardando-se. Mas, imagine que foram surpreendidos pois o filho chegou mais cedo do que era previsto ou se pensarmos em uma família que não tem quartos separados ou quartos sem um isolamento mínimo acústico, isto passa a acontecer com muita frequência.

Conforme os autores Nunes e Silva (2000), o desenvolvimento da sexualidade infantil depende muito da orientação que a mesma receberá acerca da sua própria sexualidade. Afirmam que a sexualidade tem uma participação relevante no desenvolvimento de cada um de nós, citando:

Quanto ao desenvolvimento da sexualidade infantil, estamos fazendo muito pouco para que, pelo menos, a criança aprenda a ter e assumir seu próprio corpo. O corpo que é ela própria, constitui seu ser, que vai vivenciá-lo pelo resto da vida e que deverá ser um instrumento de trabalho e prazer [...] (NUNES e SILVA, 2000. p. 51).

Os autores acentuam que as respostas sobre a sexualidade ensinam a criança a lidar com seu corpo, pois este é permeado de sensações advindas da sexualidade. Faz-se importante distinguir que ao citar o termo sexualidade falamos da expressão do corpo, dos gestos e do olhar, e ao falarmos de sexo falamos dos genitais. Então sim, passamos a vida lidando com a sexualidade.

A criança nasce sem saber da sexualidade, apenas a sente, e precisa do adulto para ser seu intérprete nessas sensações e que lhe explique, lhe traduza o que é tudo isso. Esta é a nobre função dos pais frente à curiosidade infantil.

Ainda citando Nunes e Silva, que dizem:  quando a curiosidade infantil não é satisfeita, pode virar ansiedade e desencadear até um distúrbio na personalidade. Por isso, recomendam que a curiosidade da criança seja satisfeita respeitando, certamente, os limites do seu entendimento, esclarecendo somente sua pergunta de maneira simples, sincera e objetiva, de forma que novas dúvidas não sejam geradas a partir da resposta, resultando assim em patologias e neuroses na fase adulta (NUNES E  SILVA, 2000. p.55).

Observo que a clareza dos pais, dos educadores e dos adultos frente aos temas da sexualidade preparam a criança para passar pelas fases da descoberta sexual e descobertas do corpo com facilidade e naturalidade.

Veja algumas reflexões e orientações  importantes sobre o episódio do flagra, para que seja bem trabalhado:

- Dizer a verdade sempre é o melhor caminho. O que você pode levar em conta para avaliar como vai falar sobre a situação é a idade de seu filho. Se ele for muito pequeno, uma explicação simples que satisfaça a curiosidade dele é o suficiente. Se ele for maior ou até mesmo adolescente, seja franco. É melhor ele saber sobre sexo em casa, pelos pais, do que na rua, de uma forma grosseira ou equivocada.

- Se for uma criança de até 5 anos, você deve parar tudo e dar-lhe atenção; se ela perguntar o que estava acontecendo, devolva-lhe a pergunta “o que você acha que estava acontecendo com o papai e a mamãe?” - baseado na resposta, corrija o que for necessário.

Crianças até esta idade não têm noção ainda da relação sexual e podem entender que houve ali um ato agressivo. Sim, eles entendem como “ele estava machucando ela, pois ela estava gemendo”, “ele pulava em cima dela”, “ele batia nela”. Assim é o olhar infantil. E facilmente pode associar o sexo com maldade, dor, sofrimento, que mulheres sofrem e que homens são agressivos. Então, por isto, pergunta-se o que ela entendeu daquilo que viu.

Feito isto, corrija, diga que estavam namorando, como os adultos namoram, pelados e juntos, que estava tudo bem, que não tem com o que ela se preocupar.

- Se for uma criança a partir de seis anos, você pode pedir desculpas por não ter trancado a porta e que os adultos estavam namorando, como adultos namoram. Pergunte-lhe se está tudo bem, o que quer saber a mais sobre o que viu, e se quiser perguntar em outro momento, também pode.

- Se for um pré-adolescente que estiver ali presenciando, siga o passo anterior e acrescente mais informações.

Importa, neste momento, não passar a ideia de que a criança fez algo errado, por isso não adianta gritar, ameaçar apanhar. Assim, ela vai levar um susto e pode passar a relacionar sexo com coisas ruins, proibidas e daí sim, gerar um bloqueio.

Você pode falar também que isso é uma forma de carinho e que existe muito amor entre você e seu companheiro. Que sexo deve ser feito com maturidade e respeito, e não de forma inconsequente.

Certifique-se sempre que a porta esteja trancada. Por mais que as crianças perguntem do lado de fora o que vocês estão fazendo, evite a situação constrangedora de ser pego em flagrante na sua intimidade.

Assim, sabe-se que o desconforto pode ser clareado e contornado, talvez fique algo, um incômodo, sempre que esta lembrança for acessada.

Mas, como muitos perguntam na clínica, vai traumatizar?

Este fato isoladamente, bem conduzido, não traumatizará o filho, pois o trauma se estabelece em situações de maior amplitude e intensidade emocional.

Enfim, como demonstrado até aqui, a sexualidade infantil influi diretamente na vida sexual adulta, e deve-se dar a devida importância ao tema em questão e não, por dificuldade em não saber responder, não dizer nada. Este é, sem dúvida, o posicionamento mais equivocado que os adultos cometem em relação à sexualidade e a criança, achar que não vai causar nada, que é um evento sem importância, algo desnecessário.

 

Referências Bibliográficas:

NUNES, César; SILVA, Edna. A educação sexual da criança. Campinas: Autores Associados, 2000.

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Escrito por Ceres Canali

Publicado em 2021-11-15

Tags

Psicologia

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