Trauma vicariante

Trauma vicariante é um conceito tão novo na psicologia que poucas pessoas ouviram falar sobre isso. Os conceitos de trauma comuns são relacionados a vivências e lembranças pessoais ligadas a exposições e situações de medo e ativação do sistema de emergência do corpo. No caso do trauma vicariante, uma pessoa que nunca vivenciou a situação traumática sente o trauma. Mas como isso é possível?

A tradução de vicário é o que substitui, ou seja, o trauma vicariante seria o que substitui o lugar de alguém. É um trauma indireto, como se estivesse vivenciando aquela experiência, apesar de nunca ter passado por ela.

Especialmente os profissionais da área da saúde ficam expostos a escuta e a vivência de experiências traumáticas, muitas vezes ao dia, vários dias na semana, por muitos anos. Caso eles não tenham uma auto percepção muito grande e um trabalho terapêutico de apoio, não conseguem separar o que é o relato do paciente do que é deles, e o sistema nervoso entende que aquilo que ouviu virou um trauma próprio.

Com o avanço da tecnologia, podemos acompanhar em tempo real o que está acontecendo em qualquer lugar do mundo a qualquer momento. Por um lado isso é bom, porque estamos sempre informados e conseguimos enviar ajuda e mantimentos, sempre que possível. Mas e quando ficamos vendo pessoas chorando pela perda de familiares ou amigos? Quando vemos cidades devastadas por tsunamis, vítimas de guerra, caixões? Como podemos ver tudo isso e ficar alheios ao que está acontecendo?

O trauma vicariante é esse trauma sofrido por empatia. Não pelo que vivemos, mas pelo que vemos e ouvimos. Choramos junto com as crianças mortas na escola do Rio, com o incêndio na boate Kiss em Santa Maria que matou várias pessoas, com o que ocorreu em Mariana e em Brumadinho, com os ataques terroristas que acontecem no mundo.

E nesse ano de 2020 que o mundo parou... Ouvíamos as notícias de um vírus desconhecido matando as pessoas, com uma alta taxa de transmissibilidade, que foi se espalhando pelo mundo até chegar perto. Vimos os relatos das pessoas, cidades vazias por causa do isolamento, pessoas perdendo seus empregos e não tendo o que comer, além de perderem entes queridos.

Os médicos que atendem pacientes em uma pandemia e sabem que vão intubá-los conscientes e sem se despedirem da família? Como eles ficam depois de passar por isso horas, dias, semanas, meses? Vendo as pessoas morrerem, com medo de serem contaminados, com medo de infectarem as pessoas que amam. Trabalhando várias horas para cobrir o colega que se contaminou, esperando com medo a sua vez de ser contaminado.

Será que existe alguma maneira de vivenciar tudo isso e não ser contagiado por todos esses traumas recorrentes? Nesses casos, podemos pensar em algumas medidas de prevenção a serem adotadas, como evitar assistir ou ouvir ao noticiário toda hora, tentar separar vida profissional da vida pessoal, ter momentos para se desligar fazendo algo relaxante, procurar a psicoterapia ao aparecerem os primeiros sintomas de traumas ou esgotamento físico e mental.

Ressaltamos aqui a importância do acompanhamento psicológico e medicamentoso, se necessário, com profissionais especializados e que tenham experiência no manejo de traumas, para acolher essas pessoas e usar as melhores estratégias para que elas se recuperem de forma rápida e eficaz.

 

Texto escrito pelas psicólogas: Fabiana K. Altman e Daniele Krizanovski

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Escrito por Fabiana K. Altman e Danielle Krizanovski

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