A escola como facilitadora da superação de traumas na infância

A infância, período de crescimento que vai do nascimento à puberdade, ou seja, do zero aos doze anos incompletos, configura-se em uma etapa primordial no desenvolvimento da criança e pode ser marcada por acontecimentos que se convertam em traumas com marcas profundas nessa fase da vida, com repercussões na evolução cognitiva, emocional e social. As situações traumáticas advêm de fatores como perdas, incompreensão, abandono, doenças, medos, violência física, sexual, verbal, dentre outras situações que não priorizam nem garantem a ela os direitos estabelecidos nas legislações vigentes, além do fato de que, por mais que tenhamos a intenção de resguardar nossas crianças de circunstâncias traumáticas, nem sempre será possível livrá-las de experienciar tais fatos, sobretudo neste tempo pandêmico que estamos vivendo, onde milhares de vidas foram ceifadas pelo vírus da Covid-19, dentre elas familiares dos alunos que estão inseridos nas escolas onde atuamos. Cada criança reage de maneira diferente frente a situações desconfortantes que vivenciam, variando de uma para outra, ainda que possam ter passado por experiências análogas.

 

Diante desse cenário, muitas vezes o comportamento das mesmas é categorizado como indisciplina, timidez, dificuldade de concentração, déficit de aprendizagem, sem considerar ou compreender o real  motivo dos comportamentos apresentados, que podem ser resultantes de situações traumáticas experienciadas pelos menores e que nem sempre terão condições de resolver por si só.

 

Para favorecer a criança vítima de traumas, muitas vezes é necessário o atendimento especializado, como o de um psicólogo, terapeuta ocupacional, psicopedagogo; em outras, quando não há necessidade desse apoio, o cotidiano escolar se configura em um espaço privilegiado com vistas a amenizar e até curar as dores do corpo e alma, quando este é acolhedor, afetuoso e dinâmico, pautado por um relacionamento que valoriza o respeito mútuo entre professor/aluno, aluno/professor e aluno/aluno, levando em consideração as especificidades de cada um, suas fragilidades e potencialidades. Ao se sentir valorizada, estimulada, assistida, com vez e voz, ela adquire confiança para, no seu tempo, falar, agir, muitas vezes chorar, já que percebe em seus pares e no espaço que convive a confiança, participação e construção de saberes e atitudes pautada na empatia e solidariedade.

 

Quando isso ocorre, ela se desnuda das dores e inquietações para assumir uma postura de participação e ação, mesmo que com altos e baixos típicos dessa  transmutação, pois essa passagem pode ocorrer em um processo lento e delicado. As atividades lúdicas auxiliam sobremaneira essa transição, bem como as histórias lidas e contadas no cotidiano escolar, pois conversam conosco e muitas vezes falam direto ao coração.

 

Vale ainda mencionar que a linguagem, quer seja falada, escrita, dramatizada, pictórica: constitui-se em uma importante ferramenta para o aluno manifestar tanto suas inquietações tanto quanto suas conquistas, pois, como discursou Toni Morrison no recebimento do Prêmio Nobel em 1993, “só a linguagem nos protege do horror das coisas indizíveis”.

 

Que tenhamos a graça de, ao  viver a comunhão, tocar e transformar a dor de nossos alunos e indicar luzes e esperanças nesse caminho que escolhemos trilhar.

 

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Escrito por Jeane Galhoti

Publicado em 2021-10-15

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Psicologia

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