Somos todos Neuróticos?

E se eu te disser que sim? Que a grande maioria das pessoas já apresentou ou apresenta tensões neuróticas ao longo da vida?

Mas, afinal, o que é neurose? Como saber se eu realmente sou um neurótico?

Bem, antes de tudo precisamos compreender que somos criaturas com necessidades, já nascemos necessitados. Sendo assim, a neurose é um recurso inerente da condição humana. Não é uma resposta voluntária. É um recurso de proteção à vida, de sobrevivência. Esta resposta surge mediante a vivência de algo perturbador, que pode ser um trauma, este entendido como um evento violento que gera um imenso sofrimento físico e emocional, bem como a compreensão de que não fomos suficientemente amados, protegidos ou valorizados, principalmente na primeira infância.

O sofrimento vem quando uma dessas necessidades de alimentação ou manutenção à vida, proteção e valorização não são atendidas. Então, para suprimir a sua dor ou a sua necessidade não atendida, o bebê ou a criança terá que separar as suas sensações da consciência (tiro o foco, a atenção da dor ou necessidade), uma vez que permanecer com esta dor poderá resultar em morte. É uma dor que ameaça a sua sobrevivência quando atinge um grau máximo de intolerabilidade. 

São estas duas condições, trauma ou compreensão de algo perturbador, que geram a chamada dor primal. De tão intensa esta vivência devido a sua conotação de ameaça à vida, ela praticamente se desliga da consciência. E para manter esta dor fora das memórias conscientes ou amenizada em suas significações, o corpo inicia um processo de deslocamento de forças orgânicas e psicológicas para suprimir esta dor. São estas forças deslocadas internamente que geram tensões ou neuroses. Por sua vez, ela afetará todo o organismo, primeiramente órgãos, músculos, sistemas, e por último a distorção do comportamento. 

A dor primal exerce uma força na estrutura psíquica criando uma demanda de necessidades novas. Este mecanismo ocorre para que se possa parar de sentir conscientemente a necessidade não atendida, pois isso é uma ameaça à vida. É aí que começa a busca por satisfações substitutas. Isto é, a necessidade primal não atendida é a espera por uma satisfação. Como ela não ocorreu, o bebê ou a criança irá substituir esta satisfação esperada por uma outra, substituta, também chamada de simbólica. 

As necessidades continuam a existir, porém no nível inconsciente. 

Em si mesma a neurose é uma deformidade do sentimento. Isso quer dizer que eu mudo a forma como eu me relaciono com o mundo de modo a me  proteger desta dor primal. 

Por exemplo, uma criança que não foi ouvida ou pode se exprimir é um adulto que busca compreensão e quer ser ouvido. Desejo sexual insaciável também é um exemplo de sintoma neurótico. 

A cura da neurose passa pela liberação da dor primal. Como disse Arthur Janov, criador da terapia primal, “a dor termina exatamente onde começa.” Para isso, o neurótico deve ser conduzido até o momento em que se instalou a dor primal e libertá-la por meio de um grito primal. Este grito é a reminiscência daquilo que ficou “preso” durante o evento ou a compreensão traumática. 

Esta liberação é sucedida tão logo por uma intensa sensação de relaxamento, alívio e paz. A partir daí, toda a construção neurótica esmorece e toda a ação simbólica perde a razão de existir. O indivíduo começa a retornar para a sua autenticidade. Passa a viver para si não mais em razão de uma dor.  

 

Palavras-chave

Neurótico. Dor primal. Trauma. Cura da neurose

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Escrito por Maria Helena Bessa Barros Durau

Publicado em 2021-09-15

Tags

Psicologia

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