Quando precisamos respeitar o tempo do paciente

Escrever sobre algo que já foi resolutivo no consultório é algo prazeroso e relativamente fácil. Deixa-nos com a sensação de sucesso, de sermos competentes enquanto profissionais da Psicologia e da ajuda ao ser humano. O ego, aquele pelo qual nos expressamos no mundo, é bem atendido, pois conseguimos de alguma forma atingir o objetivo e meta com aquele cliente, o peito respira aliviado e nos sentimos altivos. Mas e quando não foi possível ainda, quando “não deu certo” como gostaríamos enquanto profissional da ajuda no tempo que achamos ser razoável? Sim, temos vários desafios e com cada cliente/paciente é um, mesmo trabalhando há muitos anos na clínica.   

Essa cliente, que vamos chamar de Clarice, vem com uma queixa de ter tido uma crise no final de 2020, dando um basta para si mesma em seu sofrimento e procurando ajuda terapêutica.  Na sua primeira frase quando chega, inicia se uma lista de   comportamentos que nos mostra seu perfil de funcionamento: “Sempre cuidei de todo mundo, menos de mim” – uma doadora incondicional, uma mulher codependente. Codependencia, segundo definição da Wikipédia, é um termo da área de saúde usado para se referir a pessoas fortemente ligadas emocionalmente a uma pessoa com séria dependência física e/ou psicológica de uma substância como álcool ou outras drogas. Tem uma série de características no codependente, como sentir se responsável por outra(s) pessoa(s), por sentimentos, escolhas, bem estar ou não da pessoa com quem se relaciona, o dependente químico, e acaba se relacionando desta forma com os outros familiares e demais pessoas.  Clarice encontra-se com a idade de 53 anos, casada, com dois filhos na faculdade. Ela está no segundo curso superior, agora profissionalizando algo que “fez provavelmente de graça” – ajudar as pessoas e sem muitos limites internos, cursa Psicologia. Uma mulher inteligente, profissional em um grande colégio com várias unidades no Brasil, na área da educação, e com obesidade, relata seu peso: 115, 9kg quando chegou, início de 2021. Aumentou 14 quilos no primeiro ano da pandemia.  

Tem um histórico familiar de muita exigência e cobrança por parte dos pais ao longo da vida, uma família que preza pela perfeição. Então, quando pequena foi uma “boneca” e a mãe reforçava essa questão da beleza, loirinha de olhos azuis, com lindos vestidos, de uma cultura forte e tradicionalmente alemã. Esse valor de perfeição vem já no inconsciente desta cultura. A situação de “ser boneca” era tão forte que seus pais viajavam para vários países e compravam uma boneca de cada país e faziam coleção delas. Já foi atleta de natação, competindo por um clube. Na sua adolescência, aos 14 anos, houve uma perda trágica de um irmão de 6 anos num acidente com caminhão, ele estava com a mãe. A partir disso, o trauma toma conta dos membros da família e da relação entre eles. Ao longo da terapia, após muitas sessões, foi percebendo o problema de alcoolismo do marido. Situação essa que passa pelo importante mecanismo de defesa, não só pelo alcoolista, como no sistema familiar, a negação. Difícil enxergar a pessoa que sempre gostou de receber as pessoas com festas, reunir os amigos, alegre, hoje com possível depressão e como um alcoólico. E com mais tempo, com o avanço da terapia, fomos chegando a um emaranhado na relação de casal e seus sintomas, onde ninguém mexe no sintoma do outro para não mexer no próprio. Ou seja, as compulsões caminham juntas, enquanto um come o outro bebe, e ninguém fala nada, num equilíbrio nada saudável para ambos.  

Iniciamos o trabalho de EMDR (Tratamento de Trauma pela Dessensibilização e Reprocessamento pelo Movimento dos Olhos), porém senti como terapeuta que precisaria recursar, fortalecer mais a paciente para ela poder dar conta do conteúdo relacionado a questão da obesidade. Ir mais devagar para que “seu inconsciente pudesse relaxar”, ou seja, diminuir as defesas inconscientes e confiar no processo. Levantamos a necessidade de uma sessão da família atual. O convite foi feito. A sessão não ocorreu, porém o sistema respondeu abrindo para um diálogo. O assunto foi aberto, apesar de ser muito doloroso e difícil para os dois, porém precisam avançar nesse ponto para algo ser feito num próximo passo. E muitas vezes, é piorando, principalmente no caso do dependente químico, no caso aqui, o marido, “chegando no fundo do poço”, para haver uma decisão de retomada da vida. Como senti que precisaria ir mais devagar? Sessões que eram semanais passaram a ser quinzenais, por pedido da paciente. E os assuntos urgentes mudaram, indo para o trabalho. Tudo bem, precisamos recursar, ela precisa se sentir forte o suficiente para retomar a questão que é tão dolorosa – sua obesidade, que é uma queixa trazida por ela.  

Surgiu então outro fator: a mãe entrou em contato pedindo uma sessão  de pais “para ajudar” a filha sem que ela soubesse. Claro, só aceitaria com a presença de Clarice, com sua permissão e consentimento. Aceitar um pedido como este da parte da mãe, seria antiético e uma traição a própria paciente, que confia seus conteúdos a um profissional de Psicologia que implica sigilo. Mesmo com a fala de preocupação com a vida da filha. Não é a primeira vez que houve uma tentativa de influenciar a terapia da filha. Percebe se um funcionamento invasivo deste sistema familiar, uma família aglutinadora, o que levanta questões de traumas complexos também. Fazer a sessão de família é uma oportunidade de abertura de comunicação no sistema de origem, de forma assistida. Essa sessão aconteceu depois de um tempo. Tem mais um irmão, porém o pedido feito seria por conta de algo específico e este não foi convidado nesse momento. 

Tudo precisava ser feito de forma delicada na sessão familiar, pois muitas dores e traumas estão envolvidos, por todos. Tudo o que passamos, ao longo da história das nossas vidas vai sendo impregnado, como uma tatuagem no corpo. A mãe da Clarice também apresenta obesidade e num determinado momento ela fala disso. Além da genética, há uma lealdade familiar onde sintomas são repetidos por gerações, os ditos padrões. A mãe foi capa de revista, a filha era uma boneca. E a família a partir da perda de um filho e irmão tomou outro rumo. A mãe, dito pela paciente, depois do que aconteceu, “estava em outro lugar, fora do meu alcance. Parecia sempre estar atrás do pai”. Como se a imagem na memória dela ficasse nebulosa pela ausência da mãe. Ela, tomada pelo trauma da perda, não conseguiu estar à frente dos cuidados da filha. Esta se sentiu “desamparada”. A frase forte que ficou e foi trazida na sessão de família: “Meu filho morreu.” Como se não tivesse mais nenhum filho. Sim, o luto desestabiliza a pessoa. Queria pedir perdão à filha, mas não é o caso, porque não há culpa de nenhum lugar. E pedi então que pudesse dizer: Sinto muito! E o pai lembrou da frase que a filha de quatorze anos na época da perda, falou para o pai: ”Pai, você ainda tem dois. Nós somos uma família”. E ele, no momento da sessão: ” Uma criança dizendo isso pra mim, me amparando.” Todos choraram, se abraçaram. Houve uma inclusão do irmão que se foi, faz parte, tanto quanto os outros.  

Dois dias depois da sessão houve uma reação de esvaziamento físico por parte da paciente, foi ao banheiro por dois dias, de 5 a 6 vezes por dia.  

Portanto, o tempo é do cliente. Às vezes sentimos que podemos avançar com o cliente, às vezes preparar uma base emocional mais sólida para ele decidir quando estará preparado para o próprio passo. Esse é o cuidado com traumas complexos.  

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Escrito por Rosane Klein

Publicado em 2021-09-15

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Psicologia

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