Um estranho dentro de nós

O filósofo alemão Martin Heidegger, convencido de uma perspectiva fatalista do ser humano, afirmara que nós nascemos simplesmente para morrer. Entretanto, sua discípula Hanna Arendt discordava do seu mestre ou, numa linguagem mais psicanalítica sobre o tratamento do trauma, “matava o Pai” - direcionando um olhar diferente sobre a existência humana ao afirmar que:  mesmo que o ser humano tenha que morrer, não nasceu para morrer, mas para recomeçar (Arendt, 2007).

Como psicólogo, trabalho com a abordagem psicanalítica e aprendo muito com meus pacientes e hoje entendo a análise como uma oportunidade que proporciona recomeços. As experiências traumáticas exigem recomeços. Por exemplo: quando o amor acaba por uma traição, um abandono ou quando o outro comunica, anuncia ou denuncia que “Já não é como antes”; quando um vínculo de amor chega ao fim; quando uma pessoa não consegue sair mais de sua casa ou dirigir um automóvel; quando você está à mercê de alguém ou algo (causa do trauma), da qual você não pode escapar. Traumas de infância, reminiscências.

 No evento traumático a pessoa faz a experiência do inesperado que se torna algo da ordem do ingovernável. Um evento se revela traumático porque encontra uma pessoa desprotegida e despreparada para afrontar um determinado evento. O contexto se torna traumático por que o excesso de afeto, por ser excesso, se transforma em dor psíquica, num traço de memória afetado, ferido, doente.

tratamento do trauma com a técnica psicanalítica consiste essencialmente no trabalho compartilhado do psicanalista e do paciente, a partir de uma relação transferencial, que busca elaborar e superar as condições que produziram o trauma, historicizando-o e incluindo-o em um momento passado que não pode ser atualizado continuamente. Assim, o objetivo do tratamento envolve a possibilidade de religá-lo a uma experiência do passado, uma experiência transformadora, mas não mais geradora de outros elementos traumáticos.

Conclui-se, deste modo, que a ferida caracterizada por uma memória traumática não se organiza com um simples esquecimento, isto é, um trauma não pode ser simplesmente imêmore, mas precisa de pequenos esquecimentos para que possa ser dissolvido e lembrado em um nível normal de afeto, ou seja, com o mínimo de dor e sofrimento.  A elaboração de um evento traumático é clinicamente possível quando a pessoa é capaz não simplesmente de esquecer, mas sim de recordar de um determinado evento e mesmo assim seguir em frente, ou seja, existe a possibilidade de recomeçar e colocar-se novamente em movimento. Isso, talvez, seja a cura.

 

Psicanálise. Trauma tratamento. Recomeço.

Hannah Arendt (1958). A condição humana. Porto alegre: Editora Forense, 2007. P. 258-259.

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Escrito por Valmir Uhren

Publicado em 2021-08-18

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Psicologia

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