Trauma, pandemia e compulsões: qual a relação existente?

Um olhar peculiar para a obesidade.

Traumas fazem parte da vida e todos estão vulneráveis a isso. Eventos traumáticos estão aí, no nosso dia a dia, e muitas vezes não nos damos conta. Acontecimentos aparentemente simples também podem deixar completamente disfuncionais e alienados, visto que em geral não são reconhecidos como fontes potenciais de traumas e de desorganização interna. E vários exemplos podem ser dados nesse sentido: ambiente abusivo, profissionais da saúde que estão frequentemente em contato com o risco iminente de morte, assédio verbal/ sexual/ moral, agressividade verbal e/ou física, gravidez não planejada, traição, ambiente escolar hostil, chefe autoritário, término de relacionamentos, etc.

Quando não resolvido pode causar impacto avassalador, deixando como consequência imenso sofrimento físico e psíquico, prejudicando a resiliência e a forma de agir no dia a dia. Geram crenças limitantes: pensamentos, interpretações que tomamos como verdades (e são falsas ou pelo menos não são verdades absolutas). Quando somos submetidos a experiências ruins acumulamos uma imagem mental negativa e reforçamos no cérebro a informação. Qualquer situação que tenha relação com tais crenças fará no nosso corpo as mesmas reações físicas e psicológicas do momento vivenciado. Ao acionar o cérebro nessa mesma crença é como se acionasse “um botão de emergência” e os sintomas de estresse são ativados. Isso é involuntário, inconsciente, neurofisiológico e, infelizmente, bastante comum. 

Diante dessa situação, é comum que comecem a aparecer alguns sintomas, como uma alternativa que o corpo tem de se autorregular, buscar prazer e diminuir as tensões e situações perturbadoras. Nesse sentido, as compulsões são muito comuns. A ansiedade fica vigente, realmente incomoda é algo precisa ser feito para reduzir esse impacto. Assim, o próprio corpo tenta se ajustar sozinho, inconscientemente, de forma involuntária. Aí aparece a bebida como uma forma de relaxar e extravasar o estresse do dia a dia, o cigarro... Ah, como as pessoas falam que o cigarro acalma e torna-se, muitas vezes, o amigo nos momentos de solidão! Que amigo traiçoeiro esse, não é mesmo! Mas enfim, não vamos criticar nenhuma amizade aqui, independente da qualidade da relação.

O uso de drogas também aparece nesse mesmo contexto. Quantas vezes ouvimos relatos de usuários dizendo que ao usar algum tipo de droga o corpo relaxa e os problemas somem, não incomodam mais. Mas a bebida, o cigarro e as drogas as pessoas têm consciência do mal que fazem e tendem a criticar quem utiliza. Mas o que também é um problema, e que a maioria das pessoas não se atentam é o uso abusivo da alimentação, compras e limpeza. Sim, isso mesmo! O funcionamento é exatamente o mesmo. A única diferença é que a comida, limpar a casa, cuidar da aparência e fazer compras são socialmente aceitos – e cá entre nós, mundialmente estimulados. Com isso, o olhar para essas características como algo problemático ocorre apenas quando o caos já está instalado (dívidas exorbitantes, obesidade e comorbidades, TOC de limpeza, relacionamentos abalados devido ao comportamento, etc) e trazendo mais prejuízos para a vida do que o mal estar inicial que gerou esse comportamento.

Pensando na obesidade, mais especificamente, quem não gosta de sair para conhecer bons restaurantes, quem não tem instalado o aplicativo no celular que solicita diferentes comidas e recebem rapidamente em casa, quem não curte um sorvete/ açaí/ refrigerante e até uma cervejinha com petiscos num dia quente de verão? São coisas da vida, não é mesmo. Mas quando a comida passa a ser abusivamente errada, alimentos não saudáveis com frequência ou usado como fonte de relaxamento, daí sim é sinal de alerta.

Quando surgem aquelas frases: Ahhh, hoje eu mereço, o dia foi intenso... Ah, preciso de um chocolate...  é preciso parar, respirar e pensar! E mais, quanto tempo você demora pra comer? São 15 minutos ou menos? Hummm, comer rápido demais também é outro sinal de alerta e que merece atenção. Mastigar e engolir rápido são sinais de que a ansiedade está presente, além de ter números espaçados de refeições no dia, o que denota que a atenção está em outros afazeres, negligenciando a si mesmo, sua própria saúde. Alimentação com intervalos muito longos dão margem para “beliscar”, o que na maioria das vezes não é observado pela própria pessoa.

A comida é comumente usada como fonte de comemorações, representa também sinais de afeto e prazer. Mas o organismo sente a necessidade de fazer uso da comida como única fonte de prazer (ou impulsivamente a mais utilizada), e é o que torna um grande problema - talvez até maior do que o inicialmente gerou ansiedade. Nesse caso é preciso aprender a distinguir o que é a fome física (necessário para nutrir o corpo e manter-se vivo) da fome emocional (sente os mesmos sinais de fome, porém com maior intensidade, mas muitas vezes de alimentos específicos, junto com uma forte emoção – que é geralmente associado alguma preocupação ou problema). A fome emocional tende a escolher alimentos doces e carboidratos, pois o açúcar dá a sensação de prazer e alegria, porém demasiadamente momentânea.

A obesidade é considerada doença crônica pela Organização Mundial de Saúde, porém só é preocupante para as pessoas quando ela traz consigo as comorbidades, isto é, outras doenças associadas e, algumas vezes, tendo a cirurgia bariátrica como único recurso para o emagrecimento.  Mas cirurgia bariátrica, remédios para inibir apetite, dietas são algumas terapêuticas para obesidade, mas nada resolveram se não entender a complexidade que envolve esse tema e o papel da comida na constituição psíquica e afetiva da pessoa. E nesse ponto, olhar para os eventos traumáticos é primordial.

É comum que após um trauma se desenvolva a obesidade, geralmente acompanhada de profunda melancolia e depressão. Há a desregulação do organismo, mantendo em constante estado de alerta, alterando a produção de hormônios e mantendo alto o nível de cortisol (hormônio do estresse). E para se autorregular há a busca por prazer, que pode ser por diferentes formas, dentre eles a comida. Não é raro observarmos oferecimento de comida desde a infância em situações tristes e de tensão (mamá, um pirulito, bolo da vovó, etc). A comida é usada como recompensa e o nosso cérebro já está condicionado a isso. Ah, e como o açúcar dá prazer, né! Além de cultural, isso também é fisiológico. E com estimulação familiar isso se torna ainda mais natural. Por isso a comida passa a ter uma relação afetiva, fortalecendo assim o ciclo da compulsão alimentar e da fome emocional.

Claro que o sedentarismo e os maus hábitos interferem, porém esses são apenas a ponta do iceberg. O universo da obesidade é vasto e complexo, justamente por isso é tão comum ter o reganho de peso mesmo após o procedimento cirúrgico. Se não houver o olhar atencioso para os aspectos emocionais dificilmente terá sucesso no emagrecimento definitivo. Ter um corpo leve não requer apenas o autocontrole alimentar e a atividade física, mas sim uma vida leve! Deixar no passado os problemas do passado é vital para aprender a olhar a vida de outra maneira, deixando os problemas como aprendizado, sem dores. E isso é cura num processo terapêutico!

Diante da atual pandemia, fomos condicionados a instituir novas rotinas, o que resultou em alterações nos mais diversos padrões da vida cotidiana. Com o tempo extra em casa e as inquietações características deste período, cheio de incertezas, muitas pessoas viram na comida uma forma de realizar atividades diferentes, seja testando “seus dotes culinários”, criando novas receitas e procurando “conforto” em alimentos pouco saudáveis ou com alto nível calórico. Com a redução de atividades externas e convívio social, os recursos positivos da vida ficaram extintos, consequentemente, a comida passou a ser um importante instrumento de alegria, diversão, distração e/ou convívio familiar.

Nesse período, com o aumento de atividades home office, também houve mudanças nos padrões de consumo, uma vez que há a prioridade à praticidade, aumentando o consumo de congelados, industrializados e embutidos. E nesse cenário, há inúmeros relatos de que a demanda profissional realizada em casa aumentou significativamente, também pela necessidade de ajustar tarefas, aliado à necessidade de controle corporativo durante a quarentena. Fora a nova rotina doméstica, cuidado dos filhos, estudo dos filhos num modelo adaptado à distância, etc.

Além disso, o processo de quarentena e isolamento social, embora indispensável neste momento de pandemia, faz com que a atividade física fique limitada, o que tem impacto direto na falta de mobilidade diária. A combinação de todos esses fatores, quando persistidos por um longo período, pode resultar em ganho de peso e contribuir para o aumento das taxas de obesidade em todo o país.

E considerando que a Covid-19 tem um componente respiratório importante que se agrava, na obesidade se torna uma preocupação a mais, pois o acúmulo de gordura abdominal dificulta o diafragma, reduzindo a expansão e a capacidade do pulmão durante a respiração, agravando a insuficiência respiratória e dificultando a recuperação do paciente.

Saúde mental caminha junto com saúde física. E não há como segregar esse processo. Traumas fazem parte da vida e influenciam diretamente nosso corpo, nossa alma, nossa saúde e todas as áreas da nossa vida!

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Escrito por Daniele Rodrigues

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