Ameaça invisível que não passa, pode traumatizar?

Sim, infelizmente! Algumas áreas da psicologia, como outras áreas da saúde têm orientado o seu diagnóstico e tratamento com base na manifestação dos sintomas. Hoje vou falar aqui de uma outra forma de entendimento, uma teoria baseada em fundamentos neurocientíficos: a Teoria dos Traumas Psicológicos. A maioria das pessoas pensa no trauma como algo que tem uma origem em um evento avassalador. 

O estresse contínuo, como está ocorrendo na situação atual da pandemia, também é um fator desencadeante de traumas . Nosso corpo, após ter passado por alguma situação de estresse, precisa de um tempo para processar isso, reconhecer que não estamos mais em perigo, para desligar o sistema de alerta. Mas e esse isso não ocorre ? E se passam vários meses? Imaginem um sistema vivendo com sobrecarga por muito tempo. Dá pane! Forma traumas! Você já ouviu falar, após um acontecimento ruim: "com o tempo isso passa(..)"? O tempo não faz passar - ele anestesia. O tempo não cura! No caso da pandemia, não está passando a ameaça, porque estamos em perigo o tempo todo. Há diversos gatilhos diários que  podem fazer disparar de novo nosso sistema de alerta. Para muitas pessoas não vai passar nem depois que isso acabar. Precisarão de ajuda profissional .

Há fatores importantes que influenciam a magnitude e o impacto psicológico de um trauma: como a duração e gravidade, a época em que aconteceu, o estágio emocional da pessoa, tipo e quantidade de apoio que você recebeu, os recursos disponíveis que você teve (tudo aquilo que te fez bem - se pôde sair da situação traumática, se teve rede de apoio, espiritualidade, etc.). 

Os Traumas de choque, por exemplo,  são acontecimentos inesperados e súbitos. Geralmente as pessoas têm uma sensação de desamparo e perda de controle. As pessoas em choque ficam atordoadas, o corpo treme, podem falar coisas sem nexo. O hemisfério esquerdo do cérebro perde a conexão com o direito. O cérebro faz uma dissociação (uma ruptura) que é uma forma que tem de se proteger. Imagine ter uma notícia que você ou alguém da sua família tem um diagnóstico de Covid. Como você reagiria? O que pensaria? O que sentiria? Quanto tempo você precisaria para se estabilizar, parar de tremer ou diminuir a enxurrada de pensamentos negativos que viriam sobre a sua cabeça? E diminuir seu medo de morrer, de perder alguém?

As pessoas que já passaram por algum outro tipo de evento traumático de qualquer ordem (cabe salientar que todos já passamos por alguma experiência traumática) dependendo em que momento da vida isso ocorreu podem ter uma vulnerabilidade maior  e ter mais dificuldade para lidar com situações estressantes e potencialmente traumatogênicas.  

Quando falamos em trauma devemos dar atenção a área subcortical do cérebro, o não verbal, aquilo que não controlamos, aquilo que sentimos. Já se sabe que se não fizermos nada com um trauma após 45 dias do evento, ele fica registrado em nossas células, no nosso DNA e estando no código genético pode passar para outras gerações. Possivelmente os que virão terão em seu código genético um registro de tudo isso. A natureza faz isso para proteger a nossa espécie. A descarga de noradrenalina (neurohormônio) que temos quando passamos por alguma situação potencialmente traumática faz com que ativemos o nosso sistema de alerta. Se não houver uma resolução, inclusive neuroquímica, o trauma se consolida, isto é, a memória se fixa juntamente com  a representação negativa que temos de nós , da vida e do mundo que formamos  ao ter passado por isso. 

Além disso, o trauma desencadeia mudança hormonal, produção de cortisol, de opióides, adrenalina, afeta nosso sistema nervoso. Nosso sistema de luta e fuga é acionado. Uma das reações também é a de congelamento. Se você "congela" a chance de você se traumatizar é maior. Não há como saber como cada pessoa vai agir diante de uma situação. No entanto, as pessoas que  “congelam” merecem a atenção especial, pois têm mais chances de se traumatizar, pois  a energia permanece presa. Para curar, precisamos liberar essa energia, ou seja, o trauma deve ser tratado a nível cognitivo e sensorial.

Nós registramos nossa memória de várias formas, inclusive implicitamente (não verbalmente), o que inclui armazenamento sensoperceptivo dos fatos. E isso as técnicas que atuam a nível não verbal não conseguem acessar. É possível tratar, por exemplo uma pessoa com ansiedade e ensiná-la sobre técnicas de respiração e relaxamento, mas isso não atua diretamente  no mecanismo que faz ela ser ativada, na memória que ficou registrada, no evento chave desencadeador. 

Quando  ocorre um fato que ativa a memória sobre o trauma  ativamos novamente  as reações de luta e fuga e congelamento. Essas reações, tem  diversos disparadores  físicos (respiração mais curtinha, enrijecimento dos músculos dos membros inferiores e superiores, dilatação das pupilas, entre outros), são importantes para manter a nossa sobrevivência e nos prepararmos para nos defender. Já nascemos com esse sistema pronto. Quando ocorre um fato que o  cérebro identifica como tendo algum tipo de perigo ou que esteja relacionado àquela memória traumática, automaticamente  vai fazer com que o corpo “se prepare” para que não aconteça novamente, para que a pessoa não passe por isso mais uma vez. Ocorre que o sistema de identificação de perigo, por mais complexo que possa ser, muitas vezes falha, e para garantir que a pessoa não se traumatize de novo, age preventivamente. 

Muitas vezes não sabemos conscientemente quais são as causas que ativam nosso sistema de alerta e isso faz com que as reações físicas decorrentes da ansiedade e tristeza, bem como a interpretação que tivemos das situações que ocorreram se repitam, se instalando os transtornos psicológicos. Os transtornos depressivos e de ansiedade, por exemplo, são um exemplo dessa situação.

Infelizmente teremos um boom de casos nos consultórios psicológicos e psiquiátricos, essa será uma outra “onda da pandemia”, também com resultados devastadores.

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Escrito por Michele Beckert

Publicado em 04/03/2021

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Psicologia

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