Transtorno de Personalidade de Borderline

Vivendo à Beira do Abismo

Borderline é uma palavra em inglês que podemos traduzir como fronteira, ‘à beira da linha’, ou limítrofe.

Imagine alguém caminhando à beira do abismo todo tempo. Para melhor compreender, coloque-se a si próprio(a) nessa paisagem: você, caminhando numa fina trilha, cuja vista ora pode ser uma linda paisagem repleta de montanhas verdes, céu azul e coraçõezinhos, ora para o abismo e tudo o que o envolve, como o medo de cair, a insegurança, a ansiedade e a solidão, pois ninguém te compreende como realmente é nem possui alguém para protegê-la ou segurá-la e dar o apoio que tanto espera. Afinal, você vive sempre sob riscos e perigos, e não relaxa, sem conseguir desviar-se desta linha.

Assim é a vida de uma pessoa que possui o Transtorno de Personalidade Borderline. Vou me referir no feminino, pois a incidência é maior em mulheres que nos homens, mas o que for escrito aqui também vale para eles.

Bem, ainda na paisagem, mesmo observando a paisagem bonita, a pessoa com Boderline sabe, sem ver, dos riscos de cair e se perder em tudo o que seja difícil de lidar, além da solidão ao situar-se em um estado emocional como este. Portanto, a base emocional é o sentimento de abandono e o medo de ser abandonada. E, paradoxalmente, em razão de tanto medo, acaba por controlar o outro e a compreender o seu entorno carregada por fortes emoções. Tudo torna-se muito, ao ponto de sufocar o outro com a sua presença, e este não aguenta e, muitas vezes, vai embora. Concretiza-se, assim, o seu maior medo de ser abandonada.

Parece dramático, porém é exatamente o que uma ‘border’ vive: pura emoção, puro drama. O mundo parece estar contra ela(e) todo o tempo. Aliás, as pessoas com quem convive por vezes acham que está sendo dramática e possuem dificuldades de entender o seu funcionamento, e agem como se estivessem ‘pisando em ovos’. Justamente por esta razão, é muito comum que alguém com este transtorno permaneça no mecanismo de ataque e fuga, e com episódios muito mais frequentes de ataques ao invés da fuga, pois a fúria é outro forte sentimento muito presente e ocorre justamente por acreditar que ninguém possa gostar dela. Assim, a qualquer sinal do outro comunicando que precisou desmarcar um compromisso pois surgiu um imprevisto, por exemplo, ela jamais acredita nesta resposta e toma a culpa para si, duvidando imediatamente. Ou, se referente a um relacionamento amoroso, como um primeiro encontro, um namoro ou dentro de um casamento, este comportamento toma grandes ou maiores proporções, podendo resultar em um controle sobre o outro, muito ciúme, e crença de estar sendo traída a todo instante na qual é sustentada pelo pânico do abandono.

Devido a isso, as relações íntimas por vezes são regadas a situações complexas e tumultuadas, onde até mesmo um elogio pode ser entendido como crítica. Existe também um padrão disfuncional de se relacionar com o mundo, cujo excesso de sensibilidade a deixa nessa instabilidade afetiva o tempo inteiro. Estes pacientes usualmente possuem muita dificuldade de vir para psicoterapia e ficar, são criativos, e gostam do belo – seja na arte, na moda ou no teatro.

 Atendo A. B. que se obriga a fazer terapia por conta do filho, que é autista. Faz a terapia da forma que vive: de um modo também instável, com faltas e atrasos constantes. Às vezes consegue fazer pequenos avanços, como quando trabalhamos com uma técnica chamada EMDR (Eye Movement Dessensitization and Reprocessing), que é a dessensibilização e reprocessamento de trauma através dos movimentos dos olhos. Usar esta técnica não é de fácil manejo, pois é uma paciente que tem muita necessidade de falar, sem querer seguir algo específico que lhe ajudaria talvez mais efetivamente. Quando traz algo por escrito, como uma lista de assuntos, isso fornece um limite ou continente que tanto necessita. No entanto, quando conseguimos aplicar a técnica no tratamento de trauma, A. B. se permitiu acessar algo.

A visão de um Borderline é afetada por lentes exigentes e suas opções variam de acordo com suas expectativas e regras sobre como compreende a vida e como as coisas deveriam ser, caracterizando uma rigidez de pensamento. Esta paciente sempre acreditou que sua mãe ‘pegava no seu pé’ para que cuidasse das suas coisas e gostava somente dos irmãos. Mas, no trabalho com a EMDR, percebeu que sua mãe possuía uma atitude carinhosa de fazer um sanduíche para comer antes de ir para o trabalho, e que aquela atitude lhe mostrava algo diferente de como normalmente percebia sua relação com sua mãe. Quando algo assim ocorre, como uma nova percepção de carinho ou acolhimento por alguém tão importante, há um relaxamento momentâneo que pode vir a permanecer  como uma memória positiva, agora mais consciente. 

Atualmente, estamos acompanhando o cinema na vida real, isto é, os desenrolares dos processos judiciais entre os atores Johnny Deep e Amber Heard, que viviam um relacionamento marcado por constantes conflitos, e fortes agressões emocionais e físicas. Ao que tudo indica nos vídeos e gravações apresentados por eles mesmos, existem indícios de alcoolismo e uso de drogas por parte dele, e transtorno de personalidade borderline e histriônica dela.

Existe ainda uma parte complementar ao borderline, o outro na relação para poder lidar com este transtorno, que normalmente pode ter traços de psicopatia – um alcoolista, adicto, ou ainda alguém que seja um cuidador dependente. Novamente, uma combinação complexa de sintomas de ambas as partes, das quais, sem dúvidas, todos saem afetados e nas várias áreas da vida, bem como nas relações interpessoais no ambiente de trabalho, familiar e entre amigos.

A linha à beira do abismo, a fronteira, continuará presente para o Borderline. Porém, sempre é possível melhorar os recursos para viver de forma mais segura, diminuindo a oscilação do estado emocional com a ajuda possivelmente de medicação quando necessário e a psicoterapia levada de forma consistente, com comprometimento. O profissional psicólogo tem um papel fundamental de um ego auxiliar, trazendo mais base para este ego fragilizado como é o do borderline.

 

PALAVRAS-CHAVE: borderline; instabilidade; transtorno; EMDR.

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Escrito por Rosane Klein

Publicado em 2022-06-20

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